


| Francisco Rolo põe ênfase na defesa da qualidade do exercício médico |
| «É preciso uma mudança de rumo» |
| O urologista Francisco Rolo candidata-se à presidência do Conselho Regional do Centro da Ordem dos Médicos (OM) porque considera que este órgão e a respectiva Secção regional precisam de «mudança de rumo» e que a OM deve readquirir o seu prestígio através da qualidade do exercício médico. «Tempo Medicina» — O Conselho Regional do Centro da OM e a respectiva Secção precisam de um novo rumo? Francisco Rolo — A candidatura surge no seguimento de um projecto apresentado nas últimas eleições e que, na altura, não conseguimos levar por diante. Consideramos que é preciso uma mudança de rumo, o que implica a mudança de líderes, de forma de pensar e de trabalhar. Nos últimos anos, as pessoas dentro da Ordem dos Médicos passaram muito tempo em conflito e a discutir questões internas, esquecendo promessas eleitorais que nunca vimos discutidas ou resolvidas. «TM» — Propõe, então, uma actuação mais virada para a defesa da qualidade? FR — É o que está nos nossos estatutos: a defesa da qualidade da profissão médica — que é, ao fim e ao cabo, a defesa dos doentes —, defesa que só se pode exercer interpares. Se não houver política de defesa da qualidade e preocupação da melhoria contínua, não conseguimos avançar na qualidade de Saúde do País, nem na eficiência ou na diminuição dos custos. «TM» — Entende que esta preocupação tem estado em segundo plano? FR — Este debate tem andado muito esquecido. Continuamos sem instrumentos e regulamentos capazes de aferir a qualidade dos serviços e a qualidade do trabalho médico. O prestígio da Ordem assenta, em primeiro lugar, na qualidade do acto médico de cada um, que vai depois constituir o prestígio da profissão. E a Ordem tem de ser o garante da qualidade, com as suas regras deontológicas, com normas e regulamentação que levam a uma qualidade cada vez maior no exercício da Medicina. «TM» — O que destaca dos objectivos da sua candidatura? FR — Dentro dos 10 pontos que resumem a nossa candidatura, o que mais nos preocupa é assegurar que a actualização e valorização profissional sejam incluídas nas condições contratuais dos médicos, porque isso é estar a valorizar quem mais se esforçou. Quem é melhor tem de ser reconhecido pelos seus pares e pelas entidades que nos dão trabalho, têm de ser líderes de serviços e das direcções. São as carreiras médicas, que se foram degradando, que neste momento estão em reestruturação e que são fundamentais até para que o ensino se faça com qualidade, já que os médicos têm duas importantes tarefas: curar doentes e ensinar. E hoje em dia o ensino é diferente do que era há 10 ou 15 anos, ensina-se sobretudo método, saber estar, saber fazer, valores e relações humanas, disciplina e trabalho em equipa. «TM» — A defesa das carreiras médicas é essencial? FR — É um assunto fulcral, estou convencido de que sem elas dificilmente conseguimos levar para a frente os restantes pontos do programa. Mas há outras questões importantes que têm a ver com a agilidade que se pode introduzir nos órgãos da Ordem — que entendemos que não passa apenas pela mudança de estatutos —, ou com o funcionamento dos colégios de especialidade, cujo trabalho nem sempre é tido em conta e que julgamos ser necessário colocar no centro das decisões, como garante da qualidade técnico-científica na Ordem dos Médicos. Outro dos pontos tem a ver com o ajuste das vagas de ingresso nas faculdades de Medicina, e nas diversas especialidades, às reais necessidades do país. «TM» — Que projectos tem a sua candidatura para a área da solidariedade? FR — Sabemos que há médicos em dificuldades e que é importante apoiá-los, na saúde, na reintegração ou financeiramente. Pretendemos ainda avaliar a situação do projecto das listas anteriores de criação de uma Aldeia do Médico, que inclui área de apoio social e administrativa. Consideramos que, no actual momento, isso deverá ser extremamente difícil de concretizar, mas, entretanto, queremos ajudar as pessoas em suas casas, acompanhá-las no hospital, ajudá-las sob o ponto de vista económico se for necessário. «TM» — Como comenta os cortes no orçamento para a Saúde? FR — Há menos 1300 milhões de euros no orçamento para a Saúde, o que, junto com a dívida acumulada das várias EPE, vai implicar situações complicadas. Não sei com que repercussão para a Saúde em Portugal. Provavelmente muitas reestruturações terão de ser feitas para corrigir tudo aquilo que sejam ineficiências e desperdícios. «TM» — A candidatura a que preside apoia algum candidato a bastonário? FR — Iremos trabalhar com o bastonário que os médicos elegerem. A nossa candidatura não apoia qualquer candidato a bastonário, mas dentro dela as pessoas são livres de apoiar quem entenderem. Queremos uma candidatura independente, que os médicos escolham o bastonário e o Conselho Regional que entendam escolher, sem estar a pensar se um gosta mais ou menos do outro. Alice Oliveira …CAIXA… Fusão dos hospitais de Coimbra «pode trazer grandes benefícios» «Tempo Medicina» — Como vê a criação do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra? Francisco Rolo — A fusão dos três hospitais [Hospitais da Universidade de Coimbra, Centro Hospitalar de Coimbra e Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra] pode trazer grandes benefícios em termos de saúde e na afirmação da excelência e protagonismo de Coimbra, assim a mudança se faça com os actores devidos, respeitando a organização da profissão médica, a qualidade da Medicina e a satisfação das necessidades do doente. Quem liderar o processo não deve ter projectos de poder pessoal mas saber até onde pode ir na gestão eficiente de recursos, sem colocar em causa a qualidade do serviço ao doente. Há ainda que trabalhar na melhoria dos hospitais que estão à volta de Coimbra, para que dêem respostas localmente. Por fim, temos de ter em conta que esta fusão demorará três a quatro anos e que a poupança será muito pouco significativa no próximo ano. …CAIXA… «Médicos esquecem-se de que a Ordem somos todos nós» Tempo Medicina — Considera que muitos médicos se têm afastado da Ordem? Francisco Rolo — Um dos nossos objectivos é promover a participação de todos os médicos nas decisões da Ordem. Muitas vezes, os médicos esquecem-se de que a Ordem somos todos nós e queremos criar uma dinâmica que envolva todos, que influencie as pessoas a pensar que são parte activa. Temos de pensar no que é que podemos fazer pela Ordem e não apenas no que a Ordem pode fazer por nós. «TM» — Qual o sistema de notificação de erro que defendem? FR — Pretendemos incentivar a criação de um sistema de notificação de erro em Medicina, que tem a ver com a regulação da qualidade. A Ordem deve auditar os serviços para ver se existe a cultura da identificação do erro, não para disciplinar ou arranjar culpados, mas para perceber porque aconteceu e corrigi-lo. Se não for a Ordem a criar este sistema, e a fazê-lo interpares, há-de vir uma entidade reguladora da Saúde ou uma agência de inspecção da Saúde para o fazer, deixando de lado uma multiplicidade de factores relevantes (do lado do médico e do doente). «TM» — Como perspectiva um excesso de médicos? FR — Temos 1600 médicos a sair todos os anos. O problema dos médicos em excesso é muito grave porque precisam sempre de ter uma especialização e temos de ter vagas e capacidade formativa para a fazer, caso contrário vamos ter pessoas licenciadas em Medicina que nem sequer vão ter permissão para ser médicos. É necessário fazer um levantamento das necessidades, calcular o número de médicos que saem anualmente das faculdades e preparar, com tempo e qualidade, locais onde possam fazer a sua diferenciação. Neste momento existe uma carência de especialistas em Medicina Geral e Familiar, fruto também do aumento da acessibilidade ao Serviço Nacional de Saúde, mas julgo que o problema estará resolvido dentro de três anos. «TM» — Querem recentrar o papel da Ordem nas decisões relacionadas com o ensino pós-gradado? FR — O ensino pós-graduado da Medicina sempre esteve entregue ao médico e à Indústria Farmacêutica [IF], no entanto, os cortes que a IF tem sofrido com a redução do preço de medicamentos ou com a política dos genéricos motivou grandes restrições à formação pós-graduada. Por outro lado, temos hoje acesso rápido e eficaz a informação sobre produtos através da internet, sem necessidade dos delegados de informação médica. A ideia que temos é que a IF deixará, a pouco e pouco, de patrocinar grande parte da formação pós-graduada. Terão de ser os médicos a custeá-la e é preciso que a Ordem verifique se a formação está a ser feita, que a avalie e credite os eventos científicos. Teremos de garantir que os médicos se actualizam e discriminar positivamente os médicos que fazem mais formação ao longo da carreira. …CAIXA… «A Ordem somos todos» O candidato a presidente do Conselho Regional do Centro, Francisco Rolo, é urologista e dirige a Área de Gestão Integrada (AGI) dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). Tem como mandatário regional Américo Figueiredo, director do Serviço de Dermatologia do mesmo hospital, e como delegado da candidatura regional Duarte Nuno Vieira, presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal. Joaquim Murta, candidato a presidente da mesa da Assembleia Regional, José Manuel Nascimento Costa, candidato a presidente do Conselho Fiscal, e Frederico Valido, candidato a presidir ao Conselho Disciplinar, são alguns dos médicos que integram a lista de Francisco Rolo. A lista «A Ordem somos todos» inclui ainda candidatos à Secção Distrital da Ordem. Luís Filipe Silva, otorrinolaringologista do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC), candidata-se à liderança do Conselho Distrital de Coimbra, tendo como mandatário distrital Alberto Seabra, do Hospital da Figueira da Foz, e como delegado da lista João Eloi de Moura, do CHC. Filipe Caseiro Alves é candidato à mesa da Assembleia Distrital. TEMPO MEDICINA 1.º CADERNO de 2010.11.01 |



